Uma tragédia chamada Espaço Alternativo - Por Marcelo Negrão

Por Marcelo Negrão 26/07/2020 - 22:07 hs
Uma tragédia chamada Espaço Alternativo - Por Marcelo Negrão
Ilustração / Créditos: Ocampo Fernandes

Não é novidade para nenhum cidadão de Porto Velho o quão problemático o Espaço Alternativo se tornou. Até mesmo o poder público tem batido cabeça com o quê fazer com aquele espaço público tão frequentado pela população.

Reclamações sobre o número de ambulantes são absurdamente constantes, tal como sobre o perigo iminente que bebida alcoólica e direção podem causar, em especial, aos frequentadores da famosa pista e adjacências.

Na última semana, o jovem Tiago, de apenas 22 anos, perdeu a vida após ser vítima da inconsequência criminosa de um condutor que estava disputando um "racha" com outro carro, no Espaço Alternativo.

Isso, talvez, tenha sido a gota d'água para as discussões vazias ou de palco que tenhamos criado até agora sobre as responsabilidades individuais e coletivas sobre o lugar.

Tiago, infelizmente, representa o grito de socorro engasgado que aquele local há tanto tempo ensaia para pedir. 

Não há fiscalização, monitoramento, prefeitura ou polícia que irá resolver o problema dos rachas, do lixo jogado ou largado a sorte nas mesas, assentos, grama, da destruição da coisa pública ou, até mesmo, do furto de fios, adereços e afins.

Cenas do Espaço Alternativo sujo "pós-noitada" não espantam mais, infelizmente. Parece que já faz parte da rotina do cidadão visualizar isso, bem como da Prefeitura de limpar a sujeira dos outros.

Mencione-se, também, que a responsabilidade de zelar pela segurança e harmonia da Pista não é exclusiva do poder público como muitos querem nos vender ou como queremos acreditar.

O problema nunca foi exclusivamente a omissão do poder público. A omissão que existe no Espaço Alternativo é da nossa civilidade, educação e consciência.

Enquanto frequentadores do local e, acima de tudo, como cidadãos, somos agentes de fiscalização de qualquer espaço público da cidade. O Espaço Alternativo é somente mais um caso — claro, o mais expressivo — frente a tantas outras praças, parques, calçadões e, até mesmo, espaços privados que sofrem com a ignorância alheia.

Do contrário, o poder público continuará tampando sol com a peneira: a prefeitura continuará limpando a sujeira das noitadas e a polícia continuará acabando com as festas particulares na Pista.

A morte do Tiago é resultado de uma escalada de atos criminosos que o Espaço vem sofrendo desde que sua obra vem sendo entregue —, visto que já fora entregue algumas vezes por diversos políticos do estado: do lixo no chão, passando pela depredação, ao consumo de drogas e bebidas e, por último, aos rachas.

Ressalte-se, porém, que nenhum desses atos compara-se a perda de uma vida.

A imprudência criminosa levou a vida do Tiago. Ponto.

E os responsáveis têm que ser responsabilizados de acordo com a Lei, assim como servirão de exemplo para tantos outros que insistem em transformarem a Pista num autódromo de Interlagos.

No mesmo passo, enquanto a população insistir em destruir, vandalizar ou fechar os olhos para as baladas particulares e festas regadas a bebida aliadas à direção que trazem risco iminente a toda população, no local público em análise, seremos vítimas das nossas próprias armadilhas. Uma tragédia shakespeariana.

Estamos diante de uma guerra cultural (e estamos perdendo ela).