Ministério Público vê grande chance de Fabrício Queiroz e Adriano da Nóbrega terem feito a 'execução' de um homem durante operação

O MP-RJ vê grande chance de o ex-miliciano Adriano da Nóbrega e Fabrício Queiroz, conhecidos da família Bolsonaro, terem feito uma "execução" de um homem durante uma operação policial em 2003. Também há suspeita do uso de uma arma ilegal no crime

06/05/2021 - 00:31 hs

 O Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) avaliou ser grande a chance de "execução" de um homem identificado como Anderson Rosa de Souza, 29 anos, que morreu em 2003 durante uma operação policial comandada pelo então tenente Adriano da Nóbrega e Fabrício Queiroz, à época sargento. A vítima levou tiros no crânio, no tórax e no abdômen, na Cidade de Deus, na zona oeste do Rio. "Há grande probabilidade de que tenha ocorrido efetivamente um crime de homicídio qualificado (execução)", informa um documento do MP-RJ. Há suspeita do uso de uma arma ilegal no crime. A promotoria pediu novas diligências à polícia no dia 21 de abril.

Nóbrega era miliciano e grampos telefônicos sugeriram que, após a morte dele, seus amigos recorreram a Bolsonaro. O ex-capitão do Bope morreu em fevereiro do ano passado em uma operação policial na Bahia. Queiroz foi denunciado pelo MP-RJ no ano passado junto com o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), de quem era assessor. Procuradores apontaram por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Em 15 de maio de 2003, Nóbrega e Queiroz, ambos então servindo no 18º Batalhão da PM, disseram que revidaram um ataque a tiros e registraram a morte como "homicídio proveniente de auto de resistência", de acordo com informações publicadas nesta quarta-feira (5) em reportagem da jornalista Juliana Dal Piva, no portal Uol

Mas a hipótese de execução ganhou força após o perito Nelson Massini ser ouvido pela Polícia Civil. "Se o primeiro disparo foi pela frente, como se imagina numa situação de confronto, os dois pelas costas foram de confirmação", afirmou ele no depoimento. "Outra hipótese, se os tiros pelas costas foram os primeiros, o que contraria a posição de confronto, o tiro na região mamária foi confirmatório. Um dos disparos tem um trajeto inclinado revelando que a vítima está inclinada ou no solo", acrescentou.

Os fuzis só foram entregues para o confronto balístico no fim do ano passado. De acordo com o laudo feito pelo ICCE (Instituto de Criminalística Carlos Éboli), não houve compatibilidade entre as armas e os projéteis encontrados na cena do crime. O MP-RJ informou que, pelos dados, os foram desferidos por "arma de calibre menor de uso da corporação e ou 'até mesmo de armas de fogo sem registro (extraoficiais)'". Em consequência, há suspeita de que tenha sido usada uma arma ilegal no crime.

O crime

A morte de Anderson Rosa ocorreu na madrugada do dia 15 de maio de 2003. Quatro anos depois Queiroz se tornaria assessor do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, na Assembleia Legislativa do Rio (na Alerj).

Segundo os militares, cinco policiais patrulhavam a Cidade de Deus na madrugada do dia 15 de maio de 2003. Teriam "encontrado um grupo de pessoas supostamente armado" e que teria "efetuado disparos de arma de fogo".

Em nota, Queiroz afirmou que "soa, no mínimo, estranha a notícia de reviravolta na investigação de fato ocorrido há cerca de 18 anos". "Em um piscar de olhos, todas as provas que comprovaram atuação lícita e legítima são subitamente desconsideradas e refeitas, na tentativa de amparar artificiosa incriminação, atuação que acaba por subverter a atividade investigatória legítima em instrumento de odiosa perseguição".

Conhecidos da família Bolsonaro

Nóbrega morreu em fevereiro do ano passado em uma operação policial na Bahia. Ele chefiava o chamado Escritório do Crime, grupo de milicianos matadores de aluguel e suspeito de envolvimento com a morte da ex-vereadora Marielle Franco (PSOL), assassinada pelo crime organizado. 

Os atiradores efetuaram os disparos em um lugar sem câmeras na região central do Rio, em março de 2018, e, antes, haviam perseguido o carro dela por cerca de três quilômetros. Ativista de direitos humanos, a ex-parlamentar denunciava a violência policial e a atuação de milícias nas favelas.

O atual senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) nomeou a mãe e a ex-mulher de Adriano em seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio. Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Nóbrega recebiam sem trabalhar e devolviam parte dos salários ao ex-PM Fabrício Queiroz, que atuava como assessor do parlamentar – as famosas rachadinhas.

Ex-assessor do filho de Jair Bolsonaro, Queiroz era o principal integrantes do esquema. Foi preso em junho do ano passado em Atibaia (SP), onde estava escondido em um imóvel que pertencia a Frederick Wassef, advogado do clã presidencial. Segundo relatório do antigo Conselho de Atividades Financeiras (Coaf), Queiroz fez movimentações financeiras atípicas. Foram R$ 7 milhões de 2014 a 2017, apontaram cálculos do órgão.

Brasil247