Delegado 'influencer' de SP inventou prisão de chefe do PCC e simulou operações para ganhar seguidores, dizem policiais

Ex-braço-direito de Carlos Alberto da Cunha, conhecido como Da Cunha, relatou que o colega praticamente só comparecia ao trabalho nos dias de operações, com o objetivo de realizar a filmagem da ação

27/09/2021 - 10:55 hs
Foto: Reprodução

247 - O delegado Carlos Alberto da Cunha, 43 anos, conhecido como Da Cunha, apareceu encostando o ouvido na porta de um barraco da favela da Nhocuné, na zona leste da cidade de São Paulo, para ordenar a invasão do local, com pé na porta. "Polícia! Deita, deita", gritaram.

De acordo com o jornal Folha de S.Paulo, um homem sequestrado por criminosos do PCC (Primeiro Comando da Capital) já tinha sido liberado momentos antes por outros policiais (Patrick e Ronald), mas foi colocado novamente em um cativeiro em poder do sequestrador para que uma simulação fosse filmada, como se tivesse sido Da Cunha o responsável pela prisão. Colegas do delegado afirmaram que ele queria ganhar mais seguidores em redes sociais. 

De acordo com a versão da vítima, o delegado afirmou que a encenação seria necessária para produção de prova material, a ser juntada no processo. "Acreditando que realmente se tratava de prova policial, aceitou e foi deixado pelos policiais novamente dentro da casa com o traficante. [...] Acha que isso foi uma falha dos policiais, pois foi deixado no mesmo local que uma pessoa perigosa e ele poderia ter pego uma faca para lhe ferir", disse a vítima, que teve o nome preservado, conforme trecho de depoimento em poder do Ministério Público.

"Depois soube que a gravação não era para o processo, mas, sim, para o canal do YouTube do delegado Da Cunha e isso lhe deixou extremamente indignado, especialmente porque o delegado mentiu sobre a gravação. [...] Frisa que o que policial que realmente o libertou do cativeiro [nem] sequer participou daquela gravação", complementou o homem, no início deste mês.

O delegado Denis Ramos de Carvalho, ex-braço-direito de Da Cunha, relatou que o colega praticamente só comparecia ao trabalho nos dias de operações, com o objetivo de realizar a filmagem da ação. Da Cunha, segundo Carvalho, dizia estar muito atarefado com seu canal no YouTube.

A Folha de S. Paulo disse que, questionado, Da Cunha não respondeu sobre as acusações.

Os depoimentos da vítima e de colegas do delegado constam em inquérito da Promotoria que apura suposto enriquecimento ilícito de Da Cunha.