Médica de Rondônia formada pela Unir ironiza intubações por Covid-19: 'Duas intubações em um plantão, mais uma peço música no Fantástico'

'Duas intubações em um plantão, mais uma peço música no Fantástico', disse a médica

19/01/2021 - 23:30 hs

A médica formada pela Universidade Federal de Rondônia Leanara Amaro viralizou nas redes sociais após postar uma foto durante o plantão que fazia em um hospital de campanha em Guajará-Mirim ironizando intubações de pacientes por Covid-19. No post, a médica escreveu que dois pacientes foram intubados no mesmo plantão e em seguida ironizou o fato dizendo 'mais um eu peço música no fantástico'.

A foto foi publicada em formato de stories no seu Instagram pessoal e após repercussão negativa a médica apagou a postagem. As fotos publicadas no stories nas redes sociais permanecem em 24 horas.

Na manhã de hoje (19/01), as vacinas foram anunciadas e distribuídas para os municípios em Rondônia e na mesma data o Governo de Rondônia, por meio da Agência Estadual de Vigilância em Saúde (Agevisa) e a Secretaria de Estado da Saúde (Sesau), divulgou os dados referentes ao coronavírus (Covid-19) no Estado: Rondônia registrou em 24 horas 1.041 novos casos da Covid-19 e 14 óbitos.

São 269 pacientes internados na rede pública do Estado, com o aumento dos casos e buscando evitar um colapso na saúde pública, o Governo decretou toque de recolher para evitar aglomerações e a proliferação do vírus.

Veja o print da postagem.



A postagem surpreendeu muitos, pois ela foi vista como pejorativa e grave por conta do delicado momento em que vivemos devido a pandemia e os milhares de familiares que tem pessoas próximas intubadas devido complicações em decorrência da doença.

“Eu estou com o coração na mão por conta de familiares intubados lutando pela vida e vejo uma publicação de uma profissional de saúde que tem a missão de salvar vidas zombando dos pacientes que estão internados. Isso me entristeceu muito”, disse uma paciente que não quis se identificar.

Após receber a notícia, um vereador do munícipio encaminhou uma denuncia ao Ministério Público sobre o comportamento da médica.
Saudações as Famílias Guajaramirenses!
E com muita revolta e indignação que recebi uma postagem via whats e face, feita por uma Profissional da Medicina lotada no Hospital do COVID, onde o teor continha os seguintes dizeres:
“Dois intubados no mesmo plantão kakakakka”
“Mais um eu peço música no fantástico / frase seguida de (figura de rosto sorrindo) ”
De imediato entrei em contato com o Plantão do Ministério Público pelo celular (69) 9 8408-9938, relatei o fato e fui orientado pela sra. Andressa, que cobrasse providências das seguintes autoridades:
- Diretor do Hospital Regional, sr Wistom;
- Secretário Municipal de Saúde sr. Rafael Ripke Tadeu Rabelo e;
- Prefeita sra. Raissa Paes.
Solicitei tanto do diretor do hospital quanto do secretário, que tomassem as devidas providências que o caso requer.
O sr. Rafael, se prontificou a fazer as devidas apurações, para verificar a veracidade do fato narrado, assim bem como, de imediato publicar uma “Nota de Repúdio”, repudiando esse INFELIZ EPISÓDIO. Reiterou que desaprova toda e qualquer tipo de exposição de trabalhos realizados por profissionais da saúde, onde demostre DESPREZO PELA VIDA HUMANA.
O secretário se solidarizou com todos os pacientes e seus familiares, assim bem como toda a população guajarámirense pelo lamentável fato ocorrido.
Irei acompanhar de perto toda a apuração desse Infeliz e Repugnante ato totalmente desprezível.
RIVAN EGUEZ – O vereador da sua Família.

De forma respeitosa, o site entrou em contato com Leanara, mas até o presente momento não recebeu retorno.

Resposta da médica:

“Carta aberta à população de Guajará-Mirim

Diante dos acontecimentos envolvendo meu perfil pessoal, o instagram, e das inúmeras repercussões negativas a respeito de um post realizado em modo de stories achei justo me posicionar a respeito do assunto:

Eu sou Leanara Amaro Rocha, pros meus amigos mais próximos a Léa, a Dra. Léa. Nascida e criada em Guajará-Mirim até os meus 14 anos, quando tive o sonho de ser Médica, desde então, fui morar fora junto com meu irmão em Cuiabá/MT e lá permanecemos por 3 anos sozinhos, um sob responsabilidade do outro, estudando em escola em período integral; após todos esses anos e não suficiente para ingressar

em uma faculdade de Medicina, cursei mais um ano de cursinho em Porto Velho/RO sendo aprovada em uma instituição particular para Medicina em que permaneci por um ano.

Devido as inúmeras inteméries financeiras de só quem tem um filho em período de Graduação em instituição particular pode entender, foi necessário buscar novas oportunidades, sendo aprovada um ano depois na Universidade pública do Estado.

Tive formatura adiantada no período de pandemia pela COVID-19 em 2020 tendo em vista o status de calamidade pública do nosso Estado, sendo Guajará-Mirim/RO uma das cidades com maior taxa de mortalidade do Estado na época com falta de profissionais médicos para linha de frente.

Não posso dizer que essa era minha primeira opção de emprego, nem a segunda e por muitos e muitos dias sofri pessoalmente com a realidade do município em que nasci, tive pesadelos, pensei na minha família que ficou aqui, nos meus amigos que ficaram, nos amigos dos meus pais, no meu pai. E se fosse algum deles? E se algum deles precisar de assistência e essa não estiver disponível? E se?

Com tantas dúvidas e contrariando todos aqueles que são mais próximos de mim, decidi voltar a Guajará-Mirim, na intenção de tocar uma vida, de melhorar a realidade de pelo menos uma pessoa, isso para mim já teria pago todos os meus anos de estudo, de morar fora sozinha, de perder dias com as pessoas que amo por um bem maior.

Peço publicamente desculpas a todos os conterrâneos, familiares, amigos de familiares, conhecidos, aos gestores desse Município, meus colegas de trabalho e aos principais os meus pacientes por uma publicação não pensada, sem teor nenhum de maldade ou sentimentos ruins que foi reproduzida inúmeras e inúmeras vezes com teor totalmente diferente e discrepante do sentimento expressado naquele momento: “Rir pra não chorar”. Jamais e por hipótese nenhuma comemoraria de maneira cruel sobre os péssimos desfechos da Covid-19.

Trabalho nesta cidade desde o dia em que me formei Médica em maio de 2020, às vezes com uma carga horária longa de hora de trabalho

sem descanso e sem colegas para revezar o plantão: 36h, 48h, 72h… E neste último mês fui afastada pelos meus colegas por exaustão profissional. Síndrome de Burnout, e mesmo estando de atestado para descansar, voltei, tive um plantão tumultuado e acabei removendo paciente grave em 8h de viagem para o Hospital Referência.

Todos os meus pacientes e as pessoas que chegarem até mim serão tratadas com respeito, carinho e dedicação até que se recuperem. A essas pessoas todo meu respeito e pedido de desculpas“.