Cecília Bueno
A mulher no poder incomoda. E a mulher com personalidade incomoda ainda mais: quando o estilo vira julgamento e a competência de uma mulher é ignorada
A Procuradora da República, Gisele BleggiNas últimas semanas circulou nas redes sociais um vídeo do prefeito Luciano de Menininha ao lado da Procuradora da República, Gisele Bleggi, tratando sobre o seminário ambiental que viria acontecer na cidade com a presença da promotora.
Dentre tantos motivos pelos quais o vídeo poderia viralizar, o óbvio aconteceu: a imagem falou mais alto do que a competência. Para os telespectadores, o que mais chama atenção é o estilo pessoal da representante do Ministério Público Federal. Sendo o espaço judiciário majoritariamente masculino, a presença feminina em cargo de tamanha relevância deveria ser destacada positivamente pelo seu esforço e capacidade de conquista; no entanto, a mulher mais uma vez foi objetificada e julgada pela aparência.
Em 2022, a servidora enfrentou ataques misóginos quando tentou convencer indígenas que participavam de atos bolsonaristas bloqueando rodovias a desistirem da ação em Vilhena (RO). Naquele momento, os manifestantes recusaram os “conselhos” e fizeram uma série de ataques à sua pessoa e ao seu estilo pessoal. A servidora deixou o local sob intensa vaia. O vídeo do instante circulou nas redes sociais, onde mais ataques foram feitos.
O debate que deveria existir é sobre o trabalho, a atuação institucional e o compromisso com a sociedade. Reduzir uma trajetória profissional sólida a comentários sobre aparência não é apenas superficial, mas também revelador de um pensamento (comum) ainda preso a padrões ultrapassados.
Talvez o episódio abra espaço para uma reflexão: o meio jurídico precisa permanecer preso à imagem rigorosa ou já existe espaço para informalidade e naturalidade na hora de se apresentar? Afinal, até que ponto a serenidade de uma instituição está na aparência de quem a representa e até que ponto interfere na qualidade do trabalho entregue?





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